Fleur de Saison
Fora uma paixão de Verão. Não. Retificando: Fora uma paixão de Primavera. Tinha uma vida pacata e contida. Simples e, consideravelmente, premeditada. Não era dado a espetáculos artísticos. Contudo, uma amiga de setor, funcionária pública como eu, era voltada ao gosto pela dança. Havia, por vezes, convidado-me a vê-la nos palcos da cidade – fazia Dança de Salão. Esguia, pernas longas e delineadas, cabelos encaracolados, desregrados e rubros. Quantas noites povoou-me os sonhos. Quantas manhãs, povoou-me as poluções. Mas não passava disso, minha timidez e insegurança, me indicavam que apenas isso era mais seguro. Bem, não desfoquemos do assunto, pois este, aqui, trata-se de outro.
Uma certa noite. Não. Retificando: Uma noite certa. Deixei-me ser envolvido pela sua solicitação, consideravelmente, frequente. Finalmente, fomos à um espetáculo de dança. Neste, ela, tanto quanto, e, consideravelmente, mais que eu, era espectadora. Havia apresentações durante os finais de semana do mês em questão, de danças diversas. Neste dia, o espetáculo era de Dança Contemporânea. Nunca havia entendido bem do que se tratava. Aliás, o termo 'contemporâneo', assim como o 'pós-moderno', nunca me ficou bem explicado no juízo. Talvez, até por essa razão, motivei-me a ir.
Tomamos umas taças de Dry Martinis. Não. Retificando: Muitas taças foram ingeridas. Wanda, a amiga de repartição, havia me informado que tratava-se de uma representação teatro-musical de algumas músicas de Emilie Simon, uma tal cantora francesa - confesso que também não me era muito de música francesa, pareciam-me todas muito caretas e antiquadas. Ao menos até então. O tema da apresentação: Fleur de Saison. Não entendi bem o porquê, logo, Wanda esclareceu-me que tratava-se de uma das músicas da tal 'Emilie sei lá o quê'. Depois dos Dry Martinis, certos nomes me eram quase que inaudíveis. Coisas de quem não bebe nada alcoólico há algum tempo.
Foi um espetáculo perfeito. Não. Retificando: A Dançarina era um perfeito espetáculo. No momento que as cortinas desanuviaram-se, um palco preenchido por flores mostrou-se aberto, entregue. Todavia, posteriormente, com a Dama Florida, cujas luzes refletiram focadamente, quem entregara-se fora eu. Usava uma roupa que permitia transparência da sua pela por sob ela. Um tecido fino e leve, que exibia desenhos corporais. Estes, seguiam da nuca aos dedos dos pés. Seu corpo: um tronco. Os braços e pernas: galhos. Seus seios e sexo: flores. Pude sentir de minha cadeira, o seu perfume. Ou pude, ao menos, imaginá-lo. Criá-lo a minha vontade. Desejo.
Os movimentos corporais seguiram-se. Não. Retificando: Eu seguira os movimentos corporais. Sentia-me envolto no seu cheiro que era transmitido a cada giro, a cada levantar de mãos, a cada pulo nos braços de um dos companheiros de cena. Fui-me retirado da minha inércia diária, da minha constrição e medo. Enquanto os gestos se intensificavam, e os galhos oscilavam, via lá de longe, folhas invisíveis mexerem-se, e as flores brotarem. Elas exprimiam um odor agradável, um feromônio irresistível. Eu, nada mais podia fazer, que inalá-lo. Gostaria de poder tocar-lhes.
As flores estavam úmidas. Não. Retificando. Umedeci-as com meus lábios. Havia gotículas, conforme o tempo passava e o espetáculo aproximava-se, angustiantemente, do seu final. Poderia conhecer o jardim que me havia despertado o olfato? Tive certeza de que, ao final, iria a seu camarim, e então, veria quais eram as rosas que povoavam seu corpo, tal qual eu agora o desejava povoar, preencher. Seriam diversas? Seria a sua preferida? Rosas, orquídeas, copos-de-leite, lótus... Não conhecia de flores, mas destas, já havia ouvido falar. Me mostraria ela novas espécies?
Não havia mais flores. Não. Retificando: Havia A Flor. Ela toda me era uma composição de pétalas, folhas, galhos e perfumes. Entre músicas, que não conseguia distinguir com precisão, embora aparececem no telão e ela modificasse o figurino a quase toda nova melodia. Lembro-me apenas de tudo que remetia-me à flores. As letras do início foram: Dame de Lotus, Flowers, Fleur de Saison... Depois, extasiado como estava, nada mais me era observado. Não podia comedir-me até a hora de vê-la por trás dos palcos, quem sabe a sós. A despetalaria com meus dedos.
O espetáculo findou-se. Não. Retificando: Ele continua em mim, até o presente momento. Dei uma desculpa qualquer à Wanda, para que ela fosse para casa sozinha. O combinado era deixá-la em casa após o teatro, mas foram traçados outros caminhos. Mudanças repentinas. Quem diria! Esperei a dançarina exótica e flórea, do lado externo ao teatro. Eis que, após quase duas horas, ela sai acompanhada de seu grupo. Entraram na vã e seguiram em frente. Os segui com meu carro. Certamente comemorariam o sucesso da encenação. A casa estava lotada.
Fui até o meu jardim. Não. Retificando: Era apenas uma flor murcha. No local onde pararam, um barzinho, onde pareciam conhecer todos do local, avistei mais proximamente a dançarina, outrora, floreada. Não havia flores. Exceto as que eles haviam apanhado do palco. Não havia cheiro. Exceto os dos cigarros. Não havia galhos, ou folhas, ou pétalas. Nada que eu pudesse reconhecer no teatro. Era apenas uma mulher, como outra qualquer, que ocupava outras cadeiras e mesas do ambiente. Fui embora. Vazio.
Desde então, procuro ocupar os espetáculos da vida, em busca do aroma adocicado de flores, capaz de me despertar para a vida, me tirar da moderação, da ponderação. Não. Retificando: Não os ocupo. Eles me ocupam.
Flor de Lótus
Agosto 2011



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